LÍNGUA PRIMEIRA
COCO
– Adaptação do filme Coco da Disney / Pixar. Interpretação: alunos do Curso
Profissional de Artes do Espectáculo (12.º 13) da Escola Secundária D. Pedro V,
Lisboa. Encenação: Gonçalo Barata. Captação de imagem e edição de vídeo: São
Ludovino. Apresentação pública de 28/1/2020.
Coco
(Disney / Pixar, 2017), realização de Lee Unkrich e Adrian Molina, ganhou o
Óscar de Melhor Filme de Animação.
Outro filme levado ao palco, outra descida
ao mundo dos que já partiram, outra aventura, outra ousadia que podia correr
mal, mas correu bem, muito bem. A acção do filme decorre em múltiplos espaços
fictícios, transpostos para três espaços cénicos fundamentais: o átrio do
Auditório, o palco propriamente dito (divido em vários espaços destinados a
cenas específicas) e as escadas da plateia. O espectador começa por acompanhar
a performance ainda antes de entrar no Auditório e de se sentar. Entra, ao som
de música popular mexicana, como quem entra no pátio de uma casa em festa: a
comemoração anual do Dia dos Mortos em que se recordam os entes queridos que já
partiram. No átrio do Auditório, o público toma contacto com Miguel, o miúdo
que protagoniza a acção, e com os antecedentes da acção principal (flashback) e também o destino final de
algumas personagens (Ernesto de la Cruz, a grande estrela, morre esmagado por
um sino gigante enquanto recebe os aplausos do público). Serve este episódio de
aviso: cuidado com a forma como “agarras o momento”. Às vezes “agarrar o
momento” significa perder tudo, incluindo a própria vida.
Coco não é apenas uma história sobre a
força e a permanência dos verdadeiros afectos, é também uma história sobre o
preço da fama, sobre os métodos para a alcançar e as suas consequências. São
estes dois fios condutores (a fama e o modo como se conquista) que se
entretecem no desenrolar da acção unidos por um fundo comum, a música, a
memória e o amor. Foi a música que separou a família, foi através da música que
Ernesto de la Cruz quis “agarrar o seu momento” e conquistar a fama, é a música
que traz a alegria às pessoas simples da aldeia de Miguel ― usam-na para
conviver, festejar e até para lembrar os entes queridos ― e é a música que
conduz Miguel ao mundo dos seus antepassados para resgatar a verdade e fazer
vencer o amor.
Ernesto de la Cruz revela ser um ídolo com
pés de barro que não tem talento nem honra, um indivíduo egoísta e ambicioso
que não olha a meios para atingir os seus fins, a fama. Mata o verdadeiro autor
das canções (Hector, pai da Mama Coco) que lhe deram celebridade e goza a fama
sem quaisquer remorsos. A verdade por trás da fama de Ernesto de la Cruz deixa
a nu o jogo de aparências e a credulidade do público. Não há fama sem público.
É o reconhecimento de milhares que permite que alguém seja colocado num
pedestal. A imagem e o marketing são as ferramentas fundamentais, hoje mais que
nunca. A comunicação rápida e fácil espalha e consagra o talento, mas também a
falta dele. Nessa teia de imagens e sons, o espectador-ouvinte pode ser
cúmplice da farsa ou ajudar a desmontá-la. Os espectadores / ouvintes de
Ernesto de la Cruz eram igualmente crédulos e manipuláveis.
O absurdo desta fama infundada reside
sobretudo no facto de, mesmo após a morte, Ernesto de la Cruz continuar a ser
uma estrela; continuou a brilhar e a ser idolatrado enquanto a verdade não foi
revelada. É Miguel, o miúdo que ama verdadeiramente a música e é talentoso, que
tem nas veias o sangue do seu trisavô, Hector, que desmascara Ernesto e mostra
que “agarrar o momento” exige mais do que uma imagem esplendorosa e fútil.
Miguel faz a sua viagem ao mundo dos
mortos para resgatar o trisavô do esquecimento, mas também para devolver a
música à sua família, de onde tinha sido banida após a partida daquele em busca
da fama. Em vez da fama, Hector encontrou a traição e a morte.
É também através da música e das canções
que Miguel consegue provar à Mama Coco que nunca fora esquecida e que, sem,
saber, também lembrava: “Lembra-te de mim”. Quando Miguel começa a cantar esta
canção, composta para ela pelo seu pai Hector, a Mama Coco acompanha-o
espontaneamente como se nunca tivesse deixado de a cantar; a memória da sua
infância regressa e traz-lhe de volta o amor e a alegria.
A
música preserva a memória, lembra e faz lembrar. A memória ajuda a construir a
fama; a fama morre com o esquecimento. A memória faz parte do amor e da vida; só
quem lembra permanentemente ama deveras. Uma das cenas mais perturbadoras é,
por isto mesmo, aquela em que percebemos que ser esquecido é não ser amado e
vice-versa. O velho músico, que entrega a guitarra a Miguel, volta a morrer uma
segunda vez, morre verdadeiramente, quando foi esquecido por aqueles que o
conheceram em vida. O trisavô de Miguel também está prestes a morrer definitivamente
quando Miguel o encontra porque a velhinha Mama Coco está prestes a esquecê-lo
completamente. É a música e a fabulosa viagem de Miguel que traz de volta a
memória, o amor e a música.
Pôr de pé um espectáculo com uma produção
tão complexa foi um grande desafio para o encenador, Gonçalo Barata, e para os
jovens intérpretes, finalistas do Curso Profissional de Artes do Espectáculo. Foi
necessária uma coordenação perfeita entre todos para ordenar tantas cenas,
entradas e saídas, mudanças de espaço e de cenário, a música e o silêncio, a
luz e a penumbra. O espectador foi arrancado da sua habitual passividade de
receptor e teve de mover-se, de voltar a cabeça, de procurar a origem da voz ou
da luz, de antecipar o que viria a seguir. É uma performance que se vê melhor à
segunda vez; da primeira vez, o inesperado foi mesmo inesperado e escapou a
alguns, incluindo a mim. Inesperado, dinâmico e muito exigente do ponto de
vista da coordenação, este espectáculo merecia de facto ser visto mais vezes,
dentro e fora da escola. Uma grande vénia para todos os construtores deste
espectáculo meticulosamente inesperado.
Coco - Encenação de Gonçalo Barata
COCO - Rehearsal & Breaks - phot. & video by São Ludovino
A história que se segue (Língua Primeira) inspira-se na Mama
Coco, mas mais ainda na sabedoria misteriosa dos velhos, sobretudo quando
observada pelos olhos de uma criança.
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LÍNGUA PRIMEIRA
No livro de receitas, o único livro que
possuíra em toda a sua vida, a avó anotava tudo o que considerava importante: como
fazer pão de milho, como tricotar um casaco, como cozer um sapato, as melhores
histórias e adivinhas, as palavras bonitas ou sábias que ouvira aqui ou ali, um
Verão em que não choveu um único dia, o florescer da laranjeira no quintal, os
primeiros passos e as primeiras palavras dos filhos e netos. E tantas, tantas
outras coisas comuns e extraordinárias que preenchem os dias.
Certo dia, quando dormitava na cadeira de
baloiço, colocada à sombra numa das extremidades do alpendre, o neto mais novo
veio sorrateiramente e pegou no livro de receitas da avó. Claro que não era um
livro impresso, era um caderno com folhas lisas que a avó preenchera ao longo de
muitas décadas. Aquele livro era para Ruiz um grande mistério. A avó nunca se
separava dele, não deixava que ninguém o lesse e usava-o sempre nos momentos
importantes. Houve tempos em que chegou a pensar que a avó era uma espécie de
feiticeira que anotava ali todos os segredos de magia. Porque ela fazia mesmo
magia. Ele já vira muitas vezes com os seus próprios olhos.
Naquele Verão em que não choveu, a avó
andava muito apreensiva, sempre a olhar para o céu e a proferir palavras que
mais ninguém entendia. Um dia, quando o mês de Setembro ia já a meio, a avó
levantou-se a meio da noite e foi para o pátio acompanhada pelo seu livro de
receitas. Ruiz também andava inquieto e acordava muitas vezes de noite. Ia à
janela, via o céu limpo e as estrelas a cintilar. Por instantes ficava
maravilhado e calmo. Mas logo que se deitava, a inquietação voltava. Com aquele
céu sempre limpo nunca iria chover. Será que não voltava a chover nunca mais?
Era uma ideia assustadora. Por isso dormia a sono solto na esperança de ouvir
lá fora a canção da chuva.
Naquela noite não ouviu o cair da chuva
mas os passos da avó que fizeram ranger as tábuas do alpendre quando desceu
para o pátio. Sem fazer barulho, ele levantou-se e foi pôr-se à janela, muito
discretamente escondido atrás da cortina de renda que a avó fizera. Lá estava
ela, toda iluminada pela Lua, de braços abertos, com o livro de receitas numa
das mãos, a olhar para o céu. De vez em quando, apertava contra o peito o
caderno de capa gasta e proferia baixinho uma oração, uma fórmula mágica, uma
canção, uma história, um poema ou sabe-se lá o quê. Esteve assim várias horas,
enquanto a Lua continuava a descer para Oeste até tocar as montanhas distantes.
Enquanto este ritual durou, a Lua foi mudando de cor; de azul passou a amarela,
depois a rosa até ficar quase vermelha e parecer um pequeno sol perdido na
noite.
Quando terminou, a avó parecia exausta mas
muito calma. Voltou para dentro e foi deitar-se. Ruiz ficara completamente sem
sono e decidiu ir ele para o pátio. Sentou-se numa pedra junto à laranjeira e
assim ficou a perscrutar o céu enquanto a Lua se escondia pouco a pouco atrás
das montanhas. O luar ia-se entrelaçando com a primeira luz da manhã anunciando
um novo dia. E que dia espantoso!
Antes de os primeiros raios de Sol
desenharem a sua sombra no chão, Ruiz viu um enorme bando de pássaros
aproximar-se. Vieram pousar nas árvores em redor do pátio. Alguns decidiram
instalar-se na laranjeira e chilrear numa conversa animada. Nada de
extraordinário. Todos os dias acordava com o chilrear dos pássaros no pátio.
Nunca apontara uma fisga a um pássaro, não porque a avó ficaria muito magoada,
mas porque lhe parecia uma enorme maldade matar seres que assim de forma tão
harmoniosa o acordavam para um novo dia. O que foi diferente nessa manhã é que
ele estava ali, entre os pássaros, e não deitado na sua cama.
Os pássaros desceram dos ramos e vieram
chilrear nos beirais, nos peitoris das janelas, no alpendre, no chão mesmo aos
seus pés. Não tinham medo, pareciam sorrir e cantavam suavemente. Por fim
levantaram todos, voaram em redor da sua cabeça e voltaram a desaparecer atrás
das copas das árvores mais altas. Absorvido pela dança dos pássaros, não viu o
exacto instante em que o Sol surgia por trás das montanhas. Vinha envolto numa
auréola branca e azulada. Quando olhou, sentiu vontade de gritar mas a voz não
saía. Nuvens, eram nuvens que nasciam com o Sol. Em breve a ténue auréola
foi-se adensando como uma longa cabeleira que se estendia pelo céu.
Sem conseguir esperar mais, correu para
casa aos gritos. «Nuvens, nuvens! As nuvens voltaram! Vieram com o Sol da
alvorada!» Em breve todos estavam a pé e seguiam-no até ao pátio. Ainda tiveram
tempo de ver o grande olho luminoso piscar entre a longa cabeleira. Depois, o
Sol desapareceu por completo e todo o céu era um tecto promissor. A primeira
gota tocou os lábios de Ruiz. Saboreou-a como um delicioso néctar. A avó abriu
os braços de par em par e pronunciou mais uma daquelas melopeias que ninguém
entendia. Estampado na cara tinha o mais belo sorriso que lhe vira.
Desde esse dia, Ruiz passou a olhar a avó
como um ser que não era inteiramente deste mundo. «Foi ela!» pensou, «Foi ela
que trouxe as nuvens, trouxe a chuva! A terra vai ficar fértil de novo, vamos
ter flores e uma horta cheia de legumes!»
Passaram três anos desde esse dia e desde
então Ruiz tinha um objectivo mais importante do que todos os outros: ler o
livro de receitas da avó. Qual seria a receita para fazer chover?
Hoje a avó dormia serenamente no alpendre
e o caderno estava logo ali em cima do parapeito da janela. Chamava-o: «Vem,
vem ler-me, se fores capaz. Vem descobrir os meus segredos…»
Antes de o abrir, respirou profundamente,
preparando-se para a grande aventura e revelação. Na folha de rosto havia uns
desenhos estranhos, pareciam plantas-animais ou talvez fosse o contrário. As
folhas e as flores tinham olhos e boca e os animais tinham pernas de ramos e
cabelos de algas e conchas. Também havia estrelas e palavras soltas que não
conseguia decifrar, excepto o título escrito no centro: Livro de Receitas. Preparou-se então para a primeira página. De
novo respirou profundamente e voltou a página. Mais desenhos e frases escritas
naquela linguagem que não entendia. Não sabia que a avó desenhava, desenhava de
uma forma belamente imperfeita. Não sabia o que significavam aqueles desenhos,
apenas lhe pareciam belos e cheios de vida. Havia árvores cobertas de sóis e
luas, pássaros com asas de gotas, flores entrelaçadas com figuras humanas, o
vento inclinando a erva, uma casa feita de conchas e folhas, um caminho
seguindo para o mar…
Continuou a voltar as páginas e o espanto
prosseguia até que eram já as páginas que se voltavam sozinhas e ele estava lá
dentro, rolando pela erva fresca, sentindo o vento nos cabelos, molhando os pés
à beira mar, chilreando nos ramos de uma árvore, atravessando montanhas,
tocando as nuvens, caminhando entre as estrelas.
Assim esteve muito tempo. O Sol descia
suavemente atrás das montanhas e as sombras alongavam-se e tocavam-se numa
saudação cordial. Sem dar por isso, o caderno descaiu-lhe sobre os joelhos e
olhou o chão. Ao lado da sua sombra adivinhou a sombra da avó. Estava de pé
atrás dele. Não tinha um ar zangado nem ralhou com ele. Apenas estendeu a mão e
ele devolveu-lhe o caderno.
― O que aprendeste hoje de novo, Ruiz?
Todos os dias aprendemos coisas novas. Hoje eu aprendi que chegou o momento de
te revelar algumas páginas deste caderno. Agora que já viste o que há lá
dentro, o que aprendeste, o que compreendeste do que viste? ― Perguntou a avó
com toda a serenidade.
― Bem, não sei bem o que aprendi porque
não percebi quase nada mas sei que gostei muito e que gostava de compreender.
Que língua é essa em que escreves e falas às vezes? ― Inquiriu Ruiz.
― É a minha verdadeira língua, a primeira
que aprendi logo que comecei a falar. Todas as crianças aprenderam essa língua.
Só mais tarde, fomos obrigados a aprender esta língua que todos falam… uma
língua de esquecimento, uma língua fronteira que nos separou das origens.
Falávamos com as árvores e elas entendiam, falávamos com os pássaros e eles
chilreavam de volta, falávamos com as nuvens e o vento e eles dançavam e
cantavam em nosso redor… Mesmo calados, falávamos com o Sol e a Lua e eles
respondiam com um brilho que dos olhos passava à alma e lá ficava a fazer-nos
crescer.
― Avó, tu pareces tão sábia… quando
crescer, quero ser como tu…
― Deseja antes ser simples como eu… Essa
será a melhor maneira de seres sábio!
― Mas, diz-me, avó, o que se passou
naquela madrugada daquele Verão quente e seco quando tudo parecia estar a
morrer… Tu trouxeste as nuvens, sei bem que foste tu… Fizeste chover e tudo
voltou a brilhar…
― Enganas-te. Não fui eu que fiz chover.
Eu só falei com as estrelas e o esquecimento. É preciso falar sempre com o
esquecimento. Se falares com ele, torna-se memória que nada esquece e tudo
abarca. As estrelas nunca esquecem, sabes. Quando quiseres devolver a vida a
alguma coisa tens de falar com as estrelas. Elas lembram-se de tudo e de todos…
Mesmo que tu te esqueças, elas vão lembrar-se. Eu nunca deixei de falar com as
estrelas… por isso me lembro ainda da minha língua primeira.
― Mas como podem ouvir-te as estrelas e
compreender a tua língua… Tu vieste das estrelas? Foi lá que aprendeste essa
língua?
― As estrelas não estão sós, sabes. Estão
povoadas de muitos seres, seres que estiveram aqui, ali, além… Um dia, também
tu hás-de caminhar pelas estrelas… Será daqui a muito, muito tempo e eu estarei
lá para te receber. Caminharemos por um grande livro que contém toda a história
do mundo escrita em muitas línguas e tu vais compreendê-las todas… Foram eles,
os que moram agora nas estrelas que trouxeram as nuvens do mar até aqui…
― Mas onde é que eles estão que não os
vejo?
― Há muito mais do que aquilo que podes
ver… Não podes ver o vento, mas ele pode segredar-te muitas coisas ao ouvido…
Não podes ver as nuvens que estão para lá das montanhas, mas elas estão agora
mesmo a refrescar outras terras, não podes ver o Sol quando adormece mas está
acordado do outro lado do mundo, não podes ver a vida quando cais no sono, mas
continuas vivo e tudo continua a existir…
― Que bonitas que são aquelas nuvens avó!
Foram também eles que as trouxeram?
― Foi a Mãe Natureza, é ela o elo entre
todas as coisas… As estrelas são tão naturais como as gotas de água, como o teu
espanto de criança ou os meus cabelos brancos…
― Avó, promete-me que nunca te vais
esquecer dessa língua que te faz falar com tudo…
― Prometo! Ela não me deixaria esquecer
mesmo que eu quisesse… É a língua do amor que une todas as coisas belas e
essenciais… e eu nunca deixei de amar…
São Ludovino, 21/4/2020
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Encenação / Staging
Gonçalo BarataElenco / Cast
Adriana LoureiroAna Martins
Beatriz Carvalho
Cátia Castanheira
Diana Sardinha
Diogo Pereira
Filipa Lopes
Iris Sena
Joana Jorge
João Duarte
Maria Mendes
Mariana Correia
Nádia Antunes
Rafaela Alves
Raquel Simões
Samira Baldé
Sandro Dias
Sara Carvalho
Sofia Pedrosa
Tatiana Cavalheiro
Adaptação do filme Coco da Disney / Pixar
Adaptation of the Disney / Pixar Movie Coco
Gonçalo CostaBruno Santos
Catarina Castanhas
Constança Neves
Diogo Campos
Gil Gualota
Joana Ribeiro
José Gomes
Júlio Pinheiro
Maria Silva
Raquel Bragança
Sophia Monteiro
Tiago Sousa
Fotografia & Vídeo / Photography & Video
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