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quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

ECOS DA LENDA

 Poemas inspirados na lenda de Pedro & Inês

Pedro & Inês

Poemas


Antes do fim do mundo, despertar,
Sem D. Pedro sentir,
E dizer às donzelas que o luar
E o aceno do amado que há de vir...

E mostrar-lhes que o amor contrariado
Triunfa até da própria sepultura:
O amante, mais terno e apaixonado,
Ergue a noiva caída à sua altura.

E pedir-lhes, depois fidelidade humana
Ao mito do poeta, à linda Inês...
À eterna Julieta castelhana
Do Romeu português.

Miguel Torga, Poemas ibéricos, 1965

(Nota: este Romeu (D. Pedro I) era de facto português, mas esta Julieta (D.ª Inês) era galega, não castelhana)

Escena de la obra de teatro de la CNTC/ Teatro de Almada, 'Reinar después de morir'

Inês morreu e nem se defendeu

Inês morreu e nem se defendeu
da morte com as asas das andorinha
pois diminuta era a morte que esperava
aquela que de amor morria cada dia
aquela ovelha mansa que até mesmo cansa
olhar vestir de si o dia-a-dia
aquele colo claro sob o qual se erguia
o rosto envolto em loura cabeleira
Pedro distante soube tudo num instante
que tudo terminou e mais do que a Inês
o frio ferro matou a ele.
Nunca havia chorado é a primeira vez que chora
agora quando a terra já encerra
aquele monumento de beleza
que pode Pedro achar em toda a natureza
que pode Pedro esperar senão ouvir chorar
as próprias pedras já que da beleza
se comovam talvez uma vez que os humanos
corações consentiram na morte da inocente Inês
E Pedro pouco diz só diz talvez
Satanás excedeu o seu poder em mim
deixem-me só na morte só na vida
a morte é sem nenhuma dúvida a melhor jogada
que o sangue limpe agora as minhas mãos
cheias de nada
ó vida ó madrugada coisas do princípio vida
começada logo terminada.

Ruy Belo


Pedro e Inês

Tu amavas o sol perdidamente
e tudo te pedia um pouco do perfume do pomar
aurora não do dia aurora do amor
alegria tão forte que causava dor
nave de pedra em luz transfigurada
Há cotovias já no teu silêncio
há coisas de outra idade neste dia
que afogentou os rouxinóis da noite
É manhã nas estrelas vai alguém casar
pedra de pedra pedra intensamente
testamento lavrado sendo já alto o serão
alguém casou alguém morreu de amor
após a sua postrimeira dor
Talvez um dia eu volte lá dessa cidade
somente minha e de mais ninguém
A vida era a mágoa para mim que só pedia
a beleza contida num pequeno copo de água
Ninguém profundamente me conhece
nem talvez isso interesse a alguém
e aos íntimos menos que a ninguém
Bailador e monteiro e justiceiro
pedro primeiro pedro derradeiro

Ruy Belo, “A Margem da Alegria”, 1973, (fragmento final) in Obra Poética de Ruy Belo, vol.2, Ed. Presença


Soneto de Inês

Dos olhos corre a água do Mondego
os cabelos parecem os choupais
Inês! Inês! Rainha sem sossego
dum rei que por amor não pode mais.

Amor imenso que também é cego
amor que torna os homens imortais.
Inês! Inês! Distância a que não chego
morta tão cedo por viver demais.

Os teus gestos são verdes
os teus braços são gaivotas poisadas no regaço
dum mar azul turquesa intemporal.

As andorinhas seguem os teus passos
e tu morrendo com os olhos baços
Inês! Inês! Inês de Portugal.

José Carlos Ary dos Santos, in Poemas de Ary dos Santos

Escena de la obra de teatro de la CNTC/ Teatro de Almada, 'Reinar después de morir'

 
CHOVE!

Chove... Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta«
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...
Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

José Gomes Ferreira, in As Tormentas


A Ferida inesgotável

Na combustão de Inês a cânfora como se
sob a oxidação da luz o cordão umbilical
agora o amor prefigura-nos melhor sobre
as águas as pedras da fonte continuam
desencarnadas nos golfos do crime

as águas ainda na exatidão enregelada das
lâminas nos veios cintilantes da sílaba
o poema íngreme no equilíbrio do sangue
a fulguração do fogo inteiramente vencido
nas mãos do assombro sob os líquidos a
clara magnólia inteira a ferida ainda fresca.

João Rasteiro, in Triplov.org

Da triste, bela Inês

Da triste, bela Inês, inda os clamores
Andas, Eco chorosa, repetindo;
Inda aos piedosos céus andas pedindo
justiça contra os ímpios matadores;

Ouvem-se ainda na fonte dos Amores
De quando em quando as náiades carpindo;
E o Mondego, no caso reflectindo,
Rompe irado a barreira, alaga as flores:

Inda altos hinos o universo entoa
A Pedro, que da morta formosura
Convosco, Amores, ao sepulcro voa:

Milagre da beleza, e da ternura!
Abre, desce, olha, geme, abraça e c’roa
A malfadada Inês na sepultura.
Andas, Eco chorosa, repetindo;
Inda aos piedosos céus andas pedindo
justiça contra os ímpios matadores;

Ouvem-se ainda na fonte dos Amores
De quando em quando as náiades carpindo;
E o Mondego, no caso reflectindo,
Rompe irado a barreira, alaga as flores:

Inda altos hinos o universo entoa
A Pedro, que da morta formosura
Convosco, Amores, ao sepulcro voa:

Milagre da beleza, e da ternura!
Abre, desce, olha, geme, abraça e c’roa
A malfadada Inês na sepultura.


Bocage

 

A lamentável catástrofe de D. Inês de Castro

Da triste, bela Inês, inda os clamores
Andas, Eco chorosa, repetindo;
Inda aos piedosos Céus andas pedindo
Justiça contra os ímpios matadores;

Ouvem-se inda na Fonte dos Amores
De quando em quando as náiades carpindo;
E o Mondego, no caso reflectindo,
Rompe irado a barreira, alaga as flores:

Inda altos hinos o universo entoa
A Pedro, que da morte formosura
Convosco, Amores, ao sepulcro voa:

Milagre da beleza e da ternura!
Abre, desce, olha, geme, abraça e c'roa
A malfadada Inês na sepultura.

Bocage

Inês de Castro.
(In Retratos, e elogios dos varões, e donas, que illustraram a nação portugueza,
Tomo I, Pedro José de Figueiredo, 1762-1826, Lisboa, 1817). 

 

A Ulina
Soneto dedicatório


Da miseranda Inês o caso triste
Nos tristes sons, que a mágoa desafina,
Envia o terno Elmano à terna Ulina,
Em cujos olhos seu prazer consiste.

Paixão, que, se a sentir, não lhe resiste
Nem nos brutos sertões alma ferina,
Beleza funestou quase divina,
De que a memória em lágrimas existe.

Lê, suspira, meu bem, vendo um composto
De raras perfeições aniquilado
Por mãos do Crime, à Natureza oposto.

Tu és cópia de Inês, encanto amado;
Tu tens seu coração, tu tens seu rosto...
Ah!, defendam-te os Céus de ter seu fado!


Bocage

Longe do caro esposo Inês formosa


Longe do caro Esposo Inês formosa
Na margem do Mondego
As amorosas faces aljofrava
De mavioso pranto.
Os melindrosos, cândidos penhores
Do tálamo furtivo,
Os filhinhos gentis, imagem dela,
No regaço da mãe serenos gozam
O sono da inocência.
Coro subtil de alígeros Favónios
Que os ares embrandece,
Ora enlevado afaga
Com as plumas azuis o par mimoso,
Ora solto, inquieto,
Em leda travessura, em doce brinco,
Pela amante saudosa,
Pelos ternos meninos se reparte,
E com ténue murmúrio vai prender-se
Das áureas tranças nos anéis brilhantes.
Primavera louçã, quadra macia
Da ternura e das flores,
Que à bela Natureza o seio esmaltas,
Que no prazer de Amor ao mundo apuras
O prazer da existência,
Tu de Inês lacrimosa
As mágoas não distrais com teus encantos.
Debalde o rouxinol, cantor de amores,
Nos versos naturais os sons varia;
O límpido Mondego em vão serpeia
Co'um benigno sussurro, entre boninas
De lustroso matiz, almo perfume;
Em vão se doira o Sol de luz mais viva,
Os céus de mais pureza em vão se adornam
Por divertir-te, ó Castro;
Objectos de alegria Amor enjoam,
Se Amor é desgraçado.
A meiga voz dos Zéfiros, do rio,
Não te convida o sono:
Só de já fatigada
Na luta de amargosos pensamentos
Cerras, mísera, os olhos;
Mas não há para ti, para os amantes
Sono plácido e mudo;
Não dorme a fantasia, Amor não dorme:
Ou gratas ilusões, ou negros sonhos
Assomando na ideia, espertam, rompem
O silêncio da Morte.
Ah!, que fausta visão de Inês se apossa!
Que cena, que espectáculo assombroso
A paixão lhe afigura aos olhos d'alma!
Em marmóreo salão de altas colunas,
A sólio majestoso e rutilante
Junto ao régio amador se crê subida;
Graças de neve a púrpura lhe envolve,
Pende augusto dossel do tecto de oiro,
Rico diadema de radioso esmalte
Lhe cobre as tranças, mais formosas que ele;
Nos luzentes degraus do trono excelso
Pomposos cortesãos o orgulho acurvam;
A lisonja sagaz lhe adoça os lábios;
O monstro da política se aterra
E, se Inês perseguia, Inês adora.
Ela escuta os extremos,
Os vivas populares; vê o amante
Nos olhos estudar-lhe as leis que dita;
O prazer a transporta, amor a encanta;
Prémios, dádivas mil ao justo, ao sábio
Magnânima confere;
Rainha esquece o que sofreu vassala:
De sublimes acções orna a grandeza,
Felicita os mortais; do ceptro é digna,
Impera em corações... Mas, Céus! Que estrondo
O sonho encantador lhe desvanece!
Inês sobressaltada
Desperta, e de repente aos olhos turvos
Da vistosa ilusão lhe foge o quadro.
Ministros do Furor, três vis algozes,
De buídos punhais a dextra armada,
Contra a bela infeliz, bramando, avançam.
Ela grita, ela treme, ela descora;
Os frutos da ternura ao seio aperta,
Invocando a piedade, os Céus, o amante;
Mas de mármore aos ais, de bronze ao pranto,
À suave atracção da formosura,
Vós, brutos assassinos,
No peito lhe enterrais os ímpios ferros.
Cai nas sombras da morte
A vítima de Amor lavada em sangue;
As rosas, os jasmins da face amena
Para sempre desbotam;
Dos olhos se lhe some o doce lume;
E no fatal momento
Balbucia, arquejando: «Esposo! Esposo!»
Os tristes inocentes
À triste mãe se abraçam,
E soltam de agonia inútil choro.
Ao suspiro exalado,
Final suspiro da formosa extinta,
Os amores acodem.
Mostra a prole de Inês, e tua, ó Vénus,
Igual consternação e igual beleza:
Uns dos outros os cândidos meninos
Só nas asas diferem
(Que jazem pelo campo em mil pedaços
Carcases de marfim, virotes de oiro).
Súbito voam dois do coro alado:
Este, raivoso, a demandar vingança
No tribunal de Jove;
Aquele a conduzir o infausto anúncio
Ao descuidado amante.
Nas cem tubas da Fama o grão desastre
Irá pelo Universo.
Hão-de chorar-te, Inês, na Hircânia os tigres;
No torrado sertão da Líbia fera,
As serpes, os leões hão-de chorar-te.
Do Mondego, que atónito recua,
Do sentido Mondego as alvas filhas
Em tropel doloroso
Das urnas de cristal eis vêm surgindo;
Eis, atentas no horror do caso infando,
Terríveis maldições dos lábios vibram
Aos monstros infernais, que vão fugindo,
Já c'roam de cipreste a malfadada,
E, arrepelando as nítidas madeixas,
Lhe urdem saudosas, lúgubres endeixas.
Tu, Eco, as decoraste,
E, cortadas dos ais, assim ressoam
Nos côncavos penedos, que magoam.

Bocage

Inês de Castro.
(In Idyllios dos reis, Alberto Pimentel, 1849-1925, 
Empreza Litteraria de Lisboa, Lisboa, 1886).

Toldam-se os ares


«Toldam-se os ares,
Murcham-se as flores;
Morrei, Amores,
Que Inês morreu.

«Mísero esposo,
Desata o pranto,
Que o teu encanto
Já não é teu.

«Sua alma pura
Nos Céus se encerra;
Triste da Terra,
Porque a perdeu.

«Contra a cruenta
Raiva íerina,
Face divina
Não lhe valeu.

«Tem roto o seio
Tesoiro oculto,
Bárbaro insulto
Se lhe atreveu.

«De dor e espanto
No carro de oiro
O Númen loiro
Desfaleceu.

«Aves sinistras
Aqui piaram
Lobos uivaram,
O chão tremeu.

«Toldam-se os ares,
Murcham-se as flores:
Morrei, Amores,
Que Inês morreu.»

Bocage in Cantata à Morte de Inês de Castro (excerto)

******************** 


A linda Inês de manto

Teceram-lhe o manto
para ser de morta
assim como o pranto
se tece na roca

Assim como o trono
e como o espaldar
foi igual o modo
de a chorar

Só a morte trouxe
todo o veludo
no corte da roupa
no cinto justo

Também com o choro
lhe deram um estrado
um firmal de ouro
o corpo exumado

O vestido dado
como a choravam
era de brocado
não era escarlata

Também de pranto
a vestiram toda
era como um manto
mais fino que a roupa

Fiama H. P. Brandão, in Obra Breve, Barcas Novas, 1967

Memória


Inês, Inês,
O tempo fere mais que o sangue!
Inês em nós,
Amor que as pedras amacia.
Memória, lume vivo,
Eterna melodia.
Águas do Mondego,
Que grito fatal vos rasgou o leito?!
Amor nascido sem medo,
Por isso verdadeiro.
Doces no passar ameno,
Madrigais de silêncio,
Soluços de nunca mais
Despertando ervas frias,
Testemunhas de punhais.


Eduardo Aroso in Habitante Sensível, Universitária Editora, 1997


Escena de la obra de teatro de la CNTC/ Teatro de Almada, 'Reinar después de morir'

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Cancioneiro de Coimbra, Afonso Lopes Vieira, 1878-1946, França Amado, Coimbra, 1918

GARCIA DE RESENDE

TROVAS À MORTE DE DONA INÊS DE CASTRO

que el rei Dom Afonso o quarto, de Portugal, matou em

Coimbra, por o príncipe Dom Pedro, seu filho, 

a ter como mulher, e, pelo bem que lhe queria, não queria casar 


ENDEREÇADAS À DAMAS

Senhoras, se algum senhor
vos quiser bem ou servir
quem tomar tal servidor,
eu lhe quero descobrir
o galardão do amor.
Por sua mercê saber
o que deve de fazer,
veja que fez esta dama
que de si vos dará fama
se estas trovas quereis ler.

FALA DONA INÊS

Qual será o coração
tão cru e sem piedade,
que lhe não cause paixão
uma tão grande crueldade,
e morte tão sem razão! 
Triste de mim, inocente,
que por ter muito fervente
lealdade, fé, amor
ao príncipe, meu senhor,
me mataram cruamente.

(...)

 

segunda-feira, 21 de maio de 2018

TEATRO NA ESCOLA XXII


RISO & SISO

Paramnésia 2 - Espectáculo de Teatro de Variedades, interpretado pelos alunos de Artes do Espectáculo – Interpretação, no Auditório Chaves Santos, Escola Secundária D. Pedro V, Lisboa, 2/2/2018. Encenação de Carlos Melo.

     Neste espectáculo, fomos levados a fazer uma breve viagem por cerca de 80 anos de artes performativas, abrangendo o teatro, o cinema, a música e a dança. Foi um espectáculo dinâmico e variado como é habitual no Teatro de Variedades, preenchido por rábulas de teatro de revista, fragmentos musicais de filmes e de teatro mais clássico. Houve também um número de dança colectiva (Can’t Stop the Feeling, Justin Timberlake) coreografado por um dos alunos (Diogo Pereira). A ligação entre os sketches foi feita por uma espécie de “arrumadores de palco”, que em alguns momentos assumiram também o estatuto de verdadeiras personagens. Alguns dos sketches foram recriados livremente, sendo no entanto possível identificar uma grande parte deles pelo texto e pela postura dos actores.
     Não é um espectáculo para descrever ou comentar, é um espectáculo para ver e ouvir. Os jovens intérpretes souberam ser versáteis e conferir vivacidade a todas as interpretações. Tratou-se, naturalmente de uma sequência de recriações livres, que permitiam descobrir o ponto de partida original, acrescentando aqui e ali detalhes novos que funcionaram como um elemento de surpresa, para quem conhecia o original.
     No espaço cénico, pouco variou, excepto aquela mesa que passou a vida a entrar e a sair de cena. Esta movimentação da mesa foi precisamente o pretexto repetido para que os “arrumadores de palco” entrassem e saíssem e marcassem simultaneamente a mudança de cena. Esse espaço inalterável funcionou assim como uma espécie de galeria vazia, percorrida vez após vez por fragmentos de memória recriada. Enquanto alguns figurinos, adereços e caracterização apresentavam as marcas da época / peça / filme para que remetiam, outros esbatiam essa marca temporal.
     O momento de dança colectiva contagiou o público e mostrou como a expressividade pessoal de cada um pode encaixar na perfeição numa performance colectiva como esta. O facto de os actores terem mantido o figurino de cada personagem tornou tudo mais autêntico, mais diverso e trouxe para o mesmo tempo personagens de tempos muito diferentes.
     Como elogio e incentivo à individualidade de cada um, fica aqui um texto que, de certo modo, mistura géneros (poesia, narrativa, fábula) e as nuances da polissemia das palavras. De algum modo, o sabor popular, humorístico e crítico deste texto reflecte também o espírito do próprio Teatro de Variedades. Escrevi-o há cerca de dez anos para os meus alunos. Serviu este texto para dar as noções de sinonímia e paronímia, conotação e denotação, discurso em sentido próprio e discurso em sentido figurado, discurso directo, indirecto e indirecto livre.
 
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A PENSAR MORREU UM BURRO OU TERÁ SIDO UM ASNO
Estava o coelho a pensar,
Se havia de pular
Se havia de saltar…
Mas que grande dilema…
Ou será uma escolha difícil.

Veio uma rã e opinou
Que saltasse, que saltar é que era bom,
Que pusesse os olhos no cavalo;
Que era inimaginável nunca ter ouvido falar
No celebérrimo “Salto de Cavalo”.
― Com ele se atravessam desfiladeiros,
desertos, cascatas e montanhas.
Com ele podes ir a toda a parte,
Podes ir aonde desejares.
Basta que saltes como o cavalo sempre fez.
Olha, olha bem como se faz ─
Dizia a rã, enquanto se afastava,
Pulando de nenúfar em nenúfar.
― Saltando podes ir longe e em segurança.
Podes tocar o céu ou atravessar o oceano.
Podes ser um coelho ilustre, preclaro,
distinto, insigne e notável,
para além de respeitável, venerável, honrado e eminente roedor! ―
Ia dizendo, com ar convicto e convincente,
quando o pé lhe escorregou numa macia pétala de nenúfar
E mergulhou, sem querer, na frescura verde do lago
Ou seria um charco? -
Com o seu novíssimo chapéu de palha
Enterrado até às orelhas.

― Não, nem pensar ― veio logo contrapor o pardal,
Que por ali passava, transportando grãos de centeio.
Pousou os grãos numa folha,
tossiu como quem quer ser ouvido e sentenciou:
― Pular, pular é que é bom, está na moda e dá prestígio.
É inacreditável que nunca tenhas ouvido falar do “Pulo do Lobo”
Do famigerado “Pulo do Lobo” que tantos catapultou para a fama,
Transpondo num ápice o longo desfiladeiro do anonimato.
Vê como se faz! ― ia dizendo o pardal saltitando de ramo em ramo,
Asas semi-abertas, olhos postos no mais longínquo horizonte,
Quando tropeça na áspera casca e engole de uma só vez
Todos os grãos que o alimentariam durante uma longa semana de Inverno.

Na cabeça do coelho reinava a confusão e a desconfiança,
Ou seria o caos e a dúvida, ou a desordem e a incerteza?
Ambos opinavam de forma tão convincente
Ou seria apenas um discurso persuasivo e irrefutável?
Tudo aquilo lhe soava a publicidade enganosa de anúncio televisivo
ou classificado de jornal bombástico (sem notícias)…
Apenas com uma diferença: nesta história,
cada um é responsável pelas suas pequenas tragédias
que tanto fazem rir como chorar.

Ainda não tinha o coelho tomado uma decisão
E já o lobo saltava de trás de uma árvore
Com ideias muito claras:
- Caminhar, caminhar, caminhar sempre!
Não há nada melhor.
Já o meu avô dizia “O caminho faz-se caminhando,
Desde que o queiram a minha vontade e os meus pezinhos”.
Nunca vi melhor método para chegar a qualquer lugar.
Todos os grandes de todos os tempos
usaram este modo de locomoção:
César Lupus, Alexandre Lupino,
Washington Lupico e tantos outros.
Não me olhes com esses olhos temerosos,
Não penses que me preparo para saltar e pular
em cima do teu pêlo lindo, lustroso,
eu diria mesmo apetitoso…
Não, não, não
Caminhar é que é preciso,
Caminhar é que é saudável
E eu prezo a longevidade;
Além do mais, não tenho apetite neste instante;
Acabei agora mesmo de lanchar uma tenra perdiz…
Paz à sua alma… pois não soube caminhar… nem voar…

─ Voar, voar, voar! ─
Afirmou peremptório o pavão.
Ora aí está, o mais excelso, perfeito
e invejável modo de locomoção.
Que o diga, a águia-real, o falcão e o condor,
Que tudo vêem
e podem alcançar o horizonte mais longínquo
onde ninguém consegue tocar,
muito para lá do arco-íris…
Há mesmo quem diga,
que só eles conhecem o paradeiro do pote de ouro da fábula
muito embora desprezem tal metal
e nunca tenham tocado com o bico ou as garras
uma única libra ou dobrão.
Voar, voar, meu caro coelho,
é sem dúvida a opção mais inteligente!
Muito embora raramente eu o faça,
porque não me agradam as grandes alturas
e os riscos de uma queda abrupta e precipitada.
E, enquanto caminhava lentamente,
abriu a cauda, mostrando as mais belas plumas
que nunca usava para voar.

Que enorme presunção ─ proferiu a serpente ─
pensar que quem chega às nuvens
pode, só por isso, suplantar
quem perfura o âmago da Terra
e nele descobre diamantes, rubis e safiras
que brilham mais do que o próprio Sol…
Se duvidas, olha bem para os meus olhos,
E faz o que todos devem fazer quando me olham:
rasteja, sente o sabor do pó da terra.
Entra nestes túneis escuros, percorre estes labirintos!
Se dentro de uma hora ainda não estiveres perdido,
convido-te para cear à minha mesa,
sete palmos abaixo do solo.
Rasteja coelho, rasteja, não te intimides!
Se queres saborear o néctar dos deuses
e conhecer os segredos das esferas, da vida e do tempo
em suma, do Universo.
Rasteja, vem à minha toca
e encontrarás a luz da revelação
no cerne da escuridão.

Havia algo de atractivo em todos os argumentos,
Mas também havia algo suspeito,
Algo hiperbólico, algo ilusório, algo ambíguo,
Algo demasiado perfeito,
Algo intangível, que um mero e simples coelho pardo
Não podia ousar tocar, nem talvez compreender.
Ou será que podia?
Atravessar oceanos saltando?
Ser um eminente roedor só por dar uns saltos?
Pular para a fama, ter prestígio e andar na moda,
só por passar a vida a pular que nem um louco,
demente, desvairado, tresloucado?

— Não! Decididamente não!
Não vou ouvir conselhos alheios?
Afinal não posso eu pensar
pela minha própria cabeça
e tomar decisões simples
que só a mim dizem respeito?
Andar! Sim, andar, andar, andar…
É assim que eu hei-de mover-me…
quando me apetecer e for adequado e sensato…
Mas também hei-de saltar, pular, caminhar, voar…
E tudo o mais que a imaginação e o engenho
possam vir a inventar.

─ Conselhos, opiniões, pontos de vista
há muitos; provavelmente serão
tantos quantos os seres que habitam este bosque.
mas eu só tenho uma cabeça
e é por ela que vou pensar e decidir.
Opinar palavras vãs como se fossem leis
Façam-no os vaidosos e frívolos deste mundo,
Mas segui-los não hei-de eu,
Que ainda sou jovem mas não tolo…


Suy / São Ludovino, Outubro de 2008


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Encenação
Carlos Melo

Coreografia
Diogo Pereira

Elenco
Adriana Loureiro
Ana Beatriz Martins
Beatriz Carvalho
Cátia Castanheira
Diana Sardinha
Diogo Pereira
Filipa Lopes
Gonçalo Lourenço
Joana Jorge
João Duarte
Lara Brito
Luana da Silva Calheiros
Maria Ana Mendes
Mariana Correia
Nádia Antunes
Rafaela Alves
Raquel Simões
Ruben Santos
Samira Baldé
Sandro Dias
Sara Capinha
Sofia Pedrosa
Tatiana Cavalheiro

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Eis alguns dos sketches de que me lembro:
* Água fresca da ribeira (Aldeia da Roupa Branca, realização de Chianca de Garcia, 1939; canção interpretada por Beatriz Costa)

* A Agulha e o Dedal (A Canção de Lisboa, realização de José Cottinelli Telmo, 1933; canção interpretada por Beatriz Costa)

* O Pátio das Cantigas (realização de Francisco Ribeiro, 1942; canção popular dedicada aos Santos Polares interpretada colectivamente)

* A Ré (rábula de teatro de revista, interpretada por Ivone Silva e Carlos Ivo)

* Está lá? É do inimigo? (monólogo de Raúl Solnado)

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 Paramnésia 2 - Riso & Siso, photography by São Ludovino. 

 Paramnésia 2 - Riso & Siso, photography by São Ludovino. 

 Paramnésia 2 - Riso & Siso, photography by São Ludovino. 

 Paramnésia 2 - Riso & Siso, photography by São Ludovino. 

 Paramnésia 2 - Riso & Siso, photography by São Ludovino. 

Paramnésia 2 - Riso & Siso, photography by São Ludovino. 

 Paramnésia 2 - Riso & Siso, photography by São Ludovino. 

 Paramnésia 2 - Riso & Siso, photography by São Ludovino. 

 Paramnésia 2 - Riso & Siso, photography by São Ludovino. 

 Paramnésia 2 - Riso & Siso, photography by São Ludovino. 

 Paramnésia 2 - Riso & Siso, photography by São Ludovino. 

 Paramnésia 2 - Riso & Siso, photography by São Ludovino. 

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 Paramnésia 2 - Riso & Siso, photography by São Ludovino. 

 Paramnésia 2 - Riso & Siso, photography by São Ludovino. 

 Paramnésia 2 - Riso & Siso, photography by São Ludovino. 

 Paramnésia 2 - Riso & Siso, photography by São Ludovino. 

Paramnésia 2 - Riso & Siso, photography by São Ludovino. 

 Paramnésia 2 - Riso & Siso, photography by São Ludovino. 

 Paramnésia 2 - Riso & Siso, photography by São Ludovino. 

 Paramnésia 2 - Riso & Siso, photography by São Ludovino. 

 Paramnésia 2 - Riso & Siso, photography by São Ludovino. 

 Paramnésia 2 - Riso & Siso, photography by São Ludovino. 

 Paramnésia 2 - Riso & Siso, photography by São Ludovino.

 Paramnésia 2 - Riso & Siso, photography by São Ludovino.

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 Paramnésia 2 - Riso & Siso, photography by São Ludovino. 

 Paramnésia 2 - Riso & Siso, photography by São Ludovino. 

 Paramnésia 2 - Riso & Siso, photography by São Ludovino. 

 Paramnésia 2 - Riso & Siso, photography by São Ludovino. 

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